Montei as 1215 peças do set Super Mario World: Mario e Yoshi e fiquei com um dinossauro a correr em cima da estante. Poucos objetos me deram tanta alegria por centímetro quadrado.

Um sprite que ganhou volume
Yoshi nasceu em Super Mario World, o jogo que acompanhou o lançamento da Super Nintendo em 1990 e que na Europa só chegou em 1992, já agarrado à consola. Durante mais de três décadas, aquele dinossauro verde de sela vermelha viveu em ecrãs; agora vive em prateleiras. O set LEGO Super Mario World: Mario e Yoshi (71438) pega no par mais querido da era 16 bits e dá-lhe volume, peso e movimento, com um respeito quase arqueológico pelo material original.
E digo-o sem rodeios: para mim, é o ponto mais alto de tudo o que a parceria entre a LEGO e a Nintendo produziu até hoje. Já tínhamos tido uma NES em tijolos e imensas figuras interativas, mas nenhuma caixa me tinha devolvido tão depressa o sorriso parvo de quem encontra uma saída secreta na Donut Plains.
O trabalho de tradução é notável. O Mario mantém o boné, o bigode e as proporções atarracadas do sprite original; o Yoshi conserva o focinho enorme, as botas laranja e o olhar de eterno otimista. Ninguém tentou modernizar o que quer que fosse, e ainda bem: isto é claramente o Yoshi de 1990, não o primo tridimensional que veio depois. As cores acertam em cheio, do verde do corpo ao vermelho da sela, e o conjunto lê-se de longe como se alguém tivesse arrancado o boneco ao ecrã de uma SNES e lhe tivesse dado corpo.
A manivela que faz a magia
Na base do modelo esconde-se uma manivela. Rodá-la põe o Yoshi a correr com o Mario às costas, num ciclo de corrida que qualquer pessoa que tenha atravessado a Dinosaur Land reconhece ao primeiro segundo. É um mecanismo simples e absolutamente hipnótico. Dei por mim a rodá-lo enquanto pensava noutras coisas, como quem tamborila na mesa.
Atrás da cabeça do Yoshi há um segundo segredo: um disco que faz a língua disparar e recolher. Parece um pormenor e é o pormenor. Ninguém roda aquilo só uma vez.
O modelo inclui ainda uma Action Tag, o que significa que as figuras eletrónicas LEGO Mario, Luigi e Peach (vendidas à parte, nos sets 71439, 71440 e 71441) reagem quando pousadas no conjunto, com sons e expressões digitais. É um extra simpático para quem já vive dentro desse ecossistema; para os restantes, o set defende-se sozinho, sem pilhas nem aplicações.
1215 peças de calma
A caixa diz 18+, mas a idade ali é menos um aviso de dificuldade e mais uma promessa de ritmo. A construção é um serão comprido e delicioso, daqueles em que o tempo passa sem pedir licença. Entre o mecanismo enterrado na base, o corpo do Yoshi que ganha forma camada a camada e um Mario que é uma pequena escultura por direito próprio, nunca senti a monotonia que às vezes se instala nas caixas grandes.
Há qualquer coisa de meditativo em construir uma personagem que se conhece de cor. O cérebro sabe para onde aquilo caminha e, mesmo assim, sorri quando o focinho do Yoshi finalmente fecha e os olhos ficam no sítio. Quando encaixei o Mario na sela, apanhei-me a segurar o conjunto à distância de um braço, a olhar para ele como se tivesse doze anos outra vez.

Lugar cativo na estante
Terminado, o modelo mede 40 centímetros de altura por 26 de largura e 11 de profundidade, o suficiente para mandar na estante sem precisar de companhia. Funciona na sala, no escritório ou ao lado da televisão onde ainda mora uma consola antiga. Os 129,99 euros de preço oficial não são trocos, e não vou fingir que são; são, ainda assim, dinheiro bem gasto num objeto que continua a dar alegria muito depois do último encaixe, coisa que nem todos os jogos a esse preço conseguem prometer.
Chegou às lojas em outubro de 2024 e, quase dois anos depois, continua a parecer-me a caixa mais feliz que a LEGO fez para gente crescida. A indústria gasta fortunas em remasterizações e coleções retro para nos devolver 1990; isto consegue o mesmo com uma manivela. Rodo-a, o Yoshi desata a correr, o Mario não cai, e durante meio minuto o mundo volta a ter 16 bits. Não me lembro de melhor troca por 130 euros.
