Tom Clancy’s Jack Ryan: Ghost War chega-nos como uma longa-metragem da Amazon MGM Studios, e assenta nas personagens que Tom Clancy entregou ao mundo há décadas. Krasinski regressa ao papel principal ao lado de Wendell Pierce, Michael Kelly, Max Beesley, JJ Feild, Douglas Hodge, Betty Gabriel e Sienna Miller. A produção é de Allyson Seeger, John Krasinski e Andrew Form.
A premissa é Clancy puro, com pulsação em tempo real. Jack Ryan é arrastado de volta ao mundo da espionagem quando uma missão encoberta de carácter internacional revela uma conspiração mortífera e o obriga a confrontar uma unidade de operações especiais que opera fora do quadro legal. O relógio não pára, há vidas em risco a cada minuto, e Jack reencontra-se com o operacional veterano da CIA Mike November (Michael Kelly) e com o antigo chefe da CIA James Greer (Wendell Pierce). A experiência conjunta dos três é a única margem que lhes resta contra um inimigo que antecipa cada movimento. Surge ainda uma parceira inesperada, a oficial do MI6 Emma Marlow (Sienna Miller), de mente afiadíssima, ao lado de quem Jack e a equipa atravessam uma teia traiçoeira de traições e enfrentam um passado que julgavam encerrado. É a missão mais pessoal e de maior risco de todas as carreiras.
Para a Candey+, este conjunto de conversas tem um peso adicional: são entrevistas exclusivas em Portugal, reunidas enquanto o filme prepara a sua estreia mundial. Apresento o elenco e o realizador, pelas suas próprias palavras, a propósito do filme, das relações que se cruzam no ecrã, das cidades, dos duplos, das sequências de acção e das ideias que os levaram a trazer Jack Ryan de regresso à sala escura.

John Krasinski no papel de “Jack Ryan”
Krasinski é o arquitecto desta operação. Volta como actor, argumentista e produtor. O seu Jack Ryan foi sendo afinado ao longo de quatro temporadas de televisão, e a longa-metragem deu-lhe a oportunidade de apertar todos os parafusos. Fala com o carinho de quem moldou a personagem tijolo a tijolo e com a energia de quem continua a descobrir compartimentos novos dentro dela.
PERGUNTA: Como é regressar a Jack Ryan?
JOHN KRASINSKI: É espectacular. Sinceramente, esta foi a vez em que mais me diverti a fazer a personagem. Foi uma experiência completamente diferente. A série era outro tipo de narrativa, mais extensa, com rodagens mais longas. No filme, sentimos que o público já conhece as personagens, e isso permitiu-nos brincar mais com a tradicional estrutura em três actos.
PERGUNTA: O que tem esta personagem que o fez querer voltar a ela?
JOHN KRASINSKI: Sempre adorei a ideia de que existia um Jack Ryan. Alguém humano, decente, real, na linha da frente, um verdadeiro herói sem capa nem superpoderes. É inspirador saber que, aconteça o que acontecer no mundo, há sempre alguém a lutar pela justiça e pela ordem.
PERGUNTA: Como foi adaptar a série a uma longa-metragem?
JOHN KRASINSKI: A ideia de fazer um filme surgiu há cerca de dois anos, porque queríamos contar mais histórias de Jack Ryan e queríamos testar uma hipótese: se construíssemos uma história mais combustível, um pouco mais curta, conseguiríamos extrair mais dela? Adorei escrever ao lado do Aaron. O Aaron é dos melhores. E ver tudo isto ganhar vida tem o sabor daquilo a que eu assistia em miúdo.

PERGUNTA: Onde encontramos Jack neste filme? Pode fazer a ponte com o momento em que o deixámos?
JOHN KRASINSKI: Em termos cronológicos, o filme arranca ano e meio depois da quarta temporada. No final dessa temporada, Jack decidiu deixar a CIA, foi demasiado pesado para ele e quis regressar à vida normal. Depois percebe: o que é a vida normal sem a CIA? Para Jack, a vida normal não vale nada se não estiver ao serviço, se não puder contribuir para a segurança e a estabilidade do mundo. É aí que começamos o filme, com Greer a tentar atraí-lo de volta. Não chega propriamente a convencê-lo. O Jack é mais empurrado para dentro do que reconquistado.
PERGUNTA: Fale-nos um pouco da história entre Jack e Greer no filme.
JOHN KRASINSKI: A minha parte preferida de fazer esta série é trabalhar com este elenco. São, sem qualquer dúvida, os melhores actores. São das pessoas mais decentes, gentis e brilhantes que já conheci. Para mim, a verdadeira história de amor de Jack Ryan sempre foi, secretamente, entre Greer e Jack. É um amor fraternal que se foi cozinhando ao longo de quatro temporadas. Houve muito carinho, foram dadas muitas lições, foram aprendidas outras tantas. Neste momento das vidas deles, ambos se sentem firmes nas suas convicções. E neste filme percebemos que essas convicções se contradizem. Pela primeira vez, vemos Jack e Greer a explicarem de fio a pavio aquilo que sentem e a discordarem abertamente sobre como as coisas se devem fazer.
PERGUNTA: Fale-nos de Michael Kelly e da personagem Mike November no filme. O que tem feito desde que o vimos pela última vez?
JOHN KRASINSKI: Michael Kelly foi provavelmente um dos melhores reforços que a série podia ter recebido. Recordo-me de que ele tinha acabado de sair de House of Cards quando lhe propusemos o papel. Honestamente, achei que seria impossível conseguir alguém daquele calibre, depois daquilo que tinha feito nessa série. Por algum motivo, atirou-se para esta caixa de areia connosco. É ele que traz o alívio cómico, porque, mais uma vez, toda a comédia nasce de um lugar genuíno. É real, é honesta. Tem graça precisamente pelo seu compromisso com Jack, com Greer, com a CIA e com a vida. Vive a vida sem reservas.
Mike sempre esteve ao lado de Jack. Quando Jack se mete em sarilhos, a única pessoa em quem Greer confia o suficiente para o proteger é Mike November.
PERGUNTA: Apresente-nos a personagem da Sienna, Emma.
JOHN KRASINSKI: A Sienna Miller dá interpretações fortes e consistentes em tudo o que vejo dela, está no auge. Sou fã há muitos anos e tive depois a sorte de me tornar seu amigo. Num jantar entre amigos, perguntei-lhe se alguma vez teria interesse em fazer Jack Ryan e ela disse que sim. Ali mesmo me veio à cabeça o esboço da personagem. Não creio que conseguisse ter escrito aquele papel sem saber que era ela quem o iria interpretar.
A entrada dela inspirou-me a desenvolver esta dinâmica entre o MI6 e a CIA. Está magnífica no papel e é uma parceira maravilhosa para o Jack. No fim do filme, vemos verdadeiramente duas pessoas que não têm com quem partilhar a vida. E essa simples possibilidade de partilhar a vida com alguém é, no fundo, um vínculo, uma relação que não se quebra com facilidade. Em termos pessoais, espero voltar a ver esta relação no ecrã.
PERGUNTA: Pode falar também de Crown?
JOHN KRASINSKI: O Max é uma pessoa eléctrica. É entusiasmante, é talentoso, é músico, é actor. Tem uma autêntica joie de vivre. É um tipo maravilhoso, o que é totalmente antitético em relação a Crown. E, ainda assim, uma das coisas que procurávamos no Crown era alguém charmoso, alguém capaz de vender uma ideia. Se vamos ter um vilão a fazer o discurso do vilão, precisamos de acreditar que aquilo é real, que pode acontecer, e até que ele tem razão em alguma coisa. Será que o mundo poderia ser salvo se estivéssemos dispostos a quebrar as regras?
Esta é uma ideia muito presente nos dias que correm. Quebrar as regras para alcançar aquilo que se quer é uma tentação enorme em todas as frentes. Jack Ryan é a única pessoa que ainda diz “estou disposto a não quebrar as regras e, mesmo assim, a conseguir o que precisamos”. E é precisamente isso que está em jogo neste filme.
PERGUNTA: De que forma elevaram a fasquia das sequências de acção?
JOHN KRASINSKI: De várias formas. Elevámos a fasquia em todas as vertentes da narrativa. Na narrativa longa, por mais acção que se tenha, há sempre oito horas de história para preencher, pelo que a acção fica diluída ao longo da temporada. Num filme, instala-se aquela sensação de bomba-relógio, com as sequências de acção a encaixar-se na história de forma mais cinética, mais frenética, mais intensa. De algum modo, as nossas sequências de acção estão melhores do que nunca, porque conseguimos comprimi-las numa narrativa mais cerrada.
PERGUNTA: O que espera da reação do público durante o filme?
JOHN KRASINSKI: Espero que as pessoas se identifiquem com Jack Ryan pelas mesmas razões por que eu o fiz, ou seja, pelo facto de ser uma pessoa real na linha da frente. É humildade pensar que há gente disposta a pôr a vida em jogo e a olhar o perigo nos olhos, e a fazê-lo por nós.
E quem tem essa coragem, bem, merece muito obrigado.

Wendell Pierce no papel de “James Greer”
Se Krasinski é o coração da franquia, Pierce é a sua bússola moral. O actor moldou Greer como um homem de princípios graníticos, e o filme oferece-lhe espaço para começar a abrir fissuras nesse granito. Pierce traz consigo a tradição do grande teatro norte-americano, e essa textura entra-lhe em cada linha.
PERGUNTA: Como é estar de volta a James Greer, e o que adora nesta personagem que o levou a aceitar o papel outra vez?
WENDELL PIERCE: O que adoro nesta personagem é tentar reproduzir os homens que conheci durante o trabalho de pesquisa. A singularidade do papel, sendo um oficial da CIA com esta patente, um oficial afro-americano. Conheci vários, e o que os move enquanto membros da agência é, na minha leitura, único. Um patriotismo particular, que se traduz em garantir que o país está à altura daquilo que escreve no papel, em definir critérios para o que esperamos do país e em fazer o que for preciso para que isso se cumpra.
Quanto ao regresso ao papel, é trabalhar com um elenco fantástico, um argumento fantástico, locais fantásticos. As viagens e o reencontro com outros actores que entram nesta história são uma alegria.
PERGUNTA: Porque é este o momento certo para trazer Jack Ryan de volta, e porquê em formato de filme?
WENDELL PIERCE: Em formato de filme funciona muito bem porque condensa ainda mais a intensidade da história. Temos um número limitado de horas para a contar, em vez de a estender por um arco de episódios. E penso que é sempre tempo de reflectir sobre os nossos valores, sobretudo num mundo em mudança permanente, num mundo geopolítico em que temos de perceber qual é o nosso sistema de valores e desafiarmo-nos a nós próprios.
É isto que adoro na minha personagem. Há momentos de ambiguidade moral em que já não pode ficar nas bancadas. Tem de tomar uma decisão real sobre quais são as suas crenças e os seus princípios. Penso que vivemos um tempo, à escala global, em que temos de perceber quais são os nossos princípios e procurar viver à sua altura, sabendo que existe quem não tenha os nossos interesses em mente. E fazer o que estiver ao nosso alcance para atenuar o impacto negativo das escolhas de quem opta por viver de outra forma. Temos de estar sempre vigilantes e firmes nas convicções. Quando se vê um filme como este, somos convidados a reflectir sobre os nossos princípios, concordemos ou não com a personagem ou com o princípio em causa, e a procurar o nosso verdadeiro norte.
PERGUNTA: Fale-nos um pouco da relação entre Jack e Greer no filme e da forma como ela se desenvolve.
WENDELL PIERCE: Foi uma relação algo antagónica desde o início, porque eu estava a ser castigado por algo que tinha feito no terreno, fui chamado de volta para a sede, e foi aí que nos conhecemos. Embora ele seja um espinho no meu lado, reconheço que é muito inteligente, intuitivo, um grande analista e, no fundo, um oficial extraordinário. Mas discordamos sobre quando alguém foi longe demais e quando não foi.
Não lhe contei exactamente como ele iria estar envolvido. Pensei que seria algo inócuo, simples, banal. Acaba arrastado para a espionagem e a sua vida fica em risco. Acabei por trair uma amizade, porque nunca lhe expliquei isto à partida. Por isso temos de fazer uma viagem de reconciliação. E, para mim, uma viagem de redenção, de tentar redimir-me aos olhos dele. Como ele me indicou que não posso operar numa zona cinzenta, tenho de tomar uma decisão e seguir, de facto, a minha bússola moral.
Ou seja, ele desafia-me, eu desafio-o. Esse desacordo chega a um ponto de ruptura, mas no fim temos de o resolver. É isso que os bons amigos fazem.
PERGUNTA: Como é trabalhar com John Krasinski e Michael Kelly?
WENDELL PIERCE: Quando trabalhamos com pessoas como estas pelo mundo fora, tornamo-nos família. Reencontrarmo-nos é sempre uma alegria, trabalhar de novo é uma alegria, voltar às personagens é uma alegria. Sente-se até alguma responsabilidade em fazer tudo bem. Não quero ser eu a deixar cair a bola. Mas é muito fácil trabalhar com o John e com o Mike, porque são actores excelentes.
Disse ao John Krasinski: há uma autenticidade muito particular contigo, estás sempre no momento, e é difícil não estar no momento contigo quando contracenamos. Ele obriga-nos a sermos verdadeiros porque ele próprio é absolutamente verdadeiro, e nada funciona se houver um instante falso da nossa parte. Com o Mike é a mesma coisa. É muito autêntico, muito presente no momento. E é isso a chave de toda a boa interpretação: estar no momento, ser verdadeiro, ser autêntico.
PERGUNTA: Como é trabalhar com Max Beesley?
WENDELL PIERCE: O Max é um dos melhores actores em actividade hoje, é facílimo contracenar com ele. Traz imenso para a cena e ainda por cima é um músico excepcional.
PERGUNTA: Tem uma cena preferida que tenha filmado e porquê?
WENDELL PIERCE: A minha cena preferida é aquela em que Jack e Greer chegam ao confronto. Foi uma cena muito exigente de fazer. Mas também toda a parte de acção nas ruas, com condução, explosões e tudo o resto, é divertido fazer aquilo nas ruas. Estamos no centro de Londres e há literalmente milhares de pessoas a assistir. É bonito perceber a forma como o público nos retribui com afecto enquanto nós paramos o trânsito.
PERGUNTA: O que espera que ressoe no público enquanto vê o filme?
WENDELL PIERCE: Que bom actor de acção que eu sou. O que aprecio neste papel é ser um tipo comum numa situação extraordinária, um homem comum numa situação fora do comum. Sou o cidadão médio, um homem qualquer apanhado numa situação fora do normal. Espero que o público leve isto consigo, “por graça de Deus, ali vou eu”. É o que cada um de nós faria nessa situação. Vemos o quão nervoso ele consegue estar, o quão assustado, e ao mesmo tempo a confiança que ganha na acção, certo?

Michael Kelly no papel de “Mike November”
Mike November é o operacional com a piada seca, o amigo a quem se telefona quando a noite descarrila. Kelly passou anos a dar à personagem um sentido de humor que o universo Clancy raramente concede, e o filme deixa-o esticar a comédia e a gravidade na mesma medida. Fala do trabalho como um homem que ainda não acredita na sorte que tem.
PERGUNTA: Como é estar de volta a Mike November, e o que tem esta personagem que o fez voltar?
MICHAEL KELLY: Sinto-me afortunado de cada vez que calço os sapatos do November. É divertido tê-lo por perto. É divertido fingir que sou ele. Adoro esta personagem e adoro aquilo em que se transformou ao longo dos anos, comparado com o ponto de partida. Tem sido uma viagem deliciosa.
Adoro que Mike November tenha um sentido de humor que não se vê habitualmente neste tipo de produções. Devo grande parte disso ao John, que me ajudou a desenvolver esta personagem. Foi ganhando humor à medida que as temporadas avançavam, e isso foi uma verdadeira prenda.
PERGUNTA: Porque é este o momento certo para trazer Jack Ryan de volta?
MICHAEL KELLY: Na minha opinião, é sempre um bom momento para regressar a Jack Ryan. Tem sido essa a resposta em todo o mundo. As pessoas adoram. E, para mim, é sempre boa altura, porque adoramos fazer esta série. Adoramos produzi-la. É um prazer perceber que as relações que se vêem no ecrã são autênticas. Existem na vida real. É um lugar adorável onde estar.
PERGUNTA: Como é estar de volta com o John e com o Wendell?
MICHAEL KELLY: É o melhor que há, pá. Sinto-me afortunado. Tanto o John como o Wendell se tornaram dois dos meus amigos mais próximos. Adoro-os profundamente. Chegamos ao plateau e na maior parte dos dias rimo-nos até chorar. O John é uma das pessoas mais engraçadas que se podem encontrar. Tem histórias sem fim, fantásticas, hilariantes. E com o Wendell divertimo-nos imenso. Temos andado por lugares maravilhosos e descobrimo-los a dois. É verdadeiramente do melhor.
PERGUNTA: Fale-nos do trabalho com Sienna Miller.
MICHAEL KELLY: Temos a Sienna Miller no nosso filme [RISOS]. Para mim foi assim: meu Deus, a sério? E o John, calmamente, sim, ela quer fazer. Meu Deus, é fantástico, porque adoramo-la. A forma como a Sienna, e não estou a falar de Emma Marlow, a personagem dela, mas sim da Sienna, porque ela é mesmo assim, é talentosa, é maravilhosa, é bela. É tudo aquilo que se sabe dela. E encaixou connosco logo no primeiro dia, como se fosse minha amiga há tantos anos como o John ou o Wendell. Entrou logo no grupo. É uma sensação bonita e somos uns sortudos por termos alguém como ela no elenco.
PERGUNTA: O que achou de Dubai como local de filmagens?
MICHAEL KELLY: Achei a cidade muito interessante. É muito cidade do futuro. Os planos e os locais a que tivemos acesso, a produção neste filme é insana, porque vemos os planos e damos por nós a olhar para o Burj Khalifa, [RISOS] para o Museu do Futuro. Edifícios assim são autênticas maravilhas da arquitectura. Conseguimos filmar em todos eles. Por isso, para o público, esta é a oportunidade de ver Dubai no filme. Mesmo nos momentos mais exigentes, o nível de produção foi altíssimo.
PERGUNTA: Teve de voltar ao treino para as cenas de luta e de armas?
MICHAEL KELLY: Sim, é preciso refrescar sempre o treino de armas, sobretudo porque a metodologia muda com frequência. Fiz a opção consciente de manter a forma como o November empunha a arma, porque, como muitos destes operacionais reformados das forças especiais que continuam a fazer missões, treinam regularmente. Mas Mike November tinha uma empresa e provavelmente não andava em treinos todos os anos. Não estaria a actualizar a certificação, sobretudo no último ano, dado o que aconteceu à personagem no final da quarta temporada. Por isso decidi manter a abordagem antiga. Aprendi a nova, gostei dela, mas adoro a antiga. Reforcei o levantamento de pesos, claro, para preparar o Mike. Apanhei uma distensão no isquiotibial. Um puxão a perseguir uma moto. Mas é divertidíssimo, pá. Voltamos a ser miúdos. Fazemos toda esta acção. É como ter outra vez catorze anos a correr no quintal, não há nada que se compare. Sentir essa juventude é mesmo bom.
PERGUNTA: O que espera que ressoe no público quando vir o filme?
MICHAEL KELLY: Não sei. Quero que se divirtam. Aquilo que retirarem do filme é o que retirarem. Para mim, trata-se de passar um bom bocado. Acho que aquilo que sempre oferecemos ao público é a possibilidade de pôr os pés em cima do sofá, ver-nos e divertir-se, entrar nesta viagem e divertir-se.

Max Beesley no papel de “Liam Crown”
Crown é o antagonista de língua afiada e visão do mundo que Jack Ryan recusa aceitar. Beesley é músico e actor, com um vasto repertório nas costas, e o filme entrega-lhe uma das sequências-bandeira: uma perseguição automóvel em Londres, filmada em ruas reais a toda a velocidade. Quando fala dela é técnico, porque a geografia da perseguição é parte do entusiasmo.
PERGUNTA: Fale-nos da sequência de perseguição automóvel que tem com Wendell Pierce.
MAX BEESLEY: Começamos no Old Naval College, que é onde os veículos são feitos em pedaços pelas mãos do menda. É exactamente o local onde se filmou Jogos Patrióticos há tantos anos, com Harrison Ford, Anne Archer, Miranda Richardson, creio eu, e Sean Bean. Estar ali tem uma carga especial. A partir desse ponto há uma perseguição automóvel de cerca de dois minutos e meio, soberbamente coreografada pelo nosso coordenador de duplos, Lee Morrison. Passamos por Parliament Square, que foi cortada ao trânsito durante o fim-de-semana. Espectacular. Depois a personagem de Wendell Pierce, James Greer, apanha-me em Whitehall. Passámos pelo Cenotáfio, pelo Horse Guards Parade. Em seguida entramos em Ludgate Hill, junto à Catedral de São Paulo. É uma perseguição enorme, magnificamente coreografada, e diverti-me imenso com as partes em que pude conduzir. Foram bastantes, ainda bem.
Enquanto actor, quero sempre arriscar aquilo que sou capaz de fazer. Eu conduzo razoavelmente bem, a minha mulher discordaria, mas conduzo razoavelmente bem, e penso que a equipa dos duplos percebeu isso e disse “óptimo, metemo-lo no carro”. No primeiro dia sentei-me ao lado de Martin Ivanoff, o duplo de Matt Damon em todos os Bourne, que também faz de duplo a Daniel Craig nos filmes do Bond. Um condutor extraordinário. O Lee disse-me, vai com o Martin, aprende, aprende. Faz umas voltas com ele. No primeiro take quase não conseguia respirar. Foi extraordinário vê-lo trabalhar. Acabei por aprender, depois deixaram-me entrar no carro. Os produtores deixaram-me conduzir uma boa parte da perseguição, foi entusiasmante.
PERGUNTA: Pode falar da experiência de trabalhar com a equipa de duplos?
MAX BEESLEY: A grande vantagem deste filme é termos uma equipa britânica e europeia extraordinariamente talentosa. Os melhores entre os melhores. O nosso coordenador de duplos, Lee Morrison, está entre os melhores do mercado. E os nossos condutores de precisão. O meu duplo, Martin, é um piloto fenomenal. Já vi o trabalho dele muitas vezes. Foi duplo de Matt Damon, trabalhou bastante em The Bourne Identity, The Bourne Supremacy, Casino Royale. É inacreditável.
PERGUNTA: Fale-nos da sua experiência durante a rodagem.
MAX BEESLEY: Foi um trabalho maravilhoso, uma grande oportunidade, foi um gosto trabalhar com toda a gente. Aproveitei cada minuto. Que equipa fantástica, que elenco fantástico. Penso que o filme vai ficar magnífico. O nível de produção é insano. Dubai foi espectacular, não foi? E fechar as ruas de Londres não num, mas em cinco fins-de-semana, creio eu: Trafalgar Square, Ludgate Hill junto à Catedral de São Paulo, Parlamento. É inacreditável. Não se fazia algo assim há muitos anos.

Sienna Miller no papel de “Emma Marlow”
Emma Marlow é a primeira contraparte verdadeiramente equivalente a Jack Ryan na franquia, uma oficial do MI6 a operar à sombra de um mentor em apuros. Miller leva o papel para território que ainda não tinha explorado: uma presença fechada, atenta e contida, com uma narrativa pessoal de peso por detrás. A sua perspectiva sobre o filme é a de uma recém-chegada que aterrou no meio de uma família já em conversa.
PERGUNTA: Pode dar-nos uma breve descrição da personagem e do papel dela na história?
SIENNA MILLER: Emma é uma oficial do MI6. Muito discreta, muito inteligente, muito dura na área da espionagem. O mentor dela meteu-se em sarilhos sérios e ela tem andado a segui-lo sem que ele saiba, a tentar perceber o que se passa. É aí que se cruza com o Jack. Juntos formam equipa e desmontam a história.
O que mais me atraiu nela foi a resiliência, a dureza e a capacidade de não revelar muito. Interpretar alguém contido é difícil. Não é a minha natureza. Foi um desafio descer o tom da vulnerabilidade e do calor que tenho por defeito e tentar erguer um exterior mais duro. É algo que nunca tinha feito e que me deu enorme prazer.
PERGUNTA: O que a atraiu na história?
SIENNA MILLER: Há muito tempo que queria trabalhar com o John Krasinski, somos amigos fora do trabalho. Tinha vontade de fazer um filme grande, daqueles que o público gosta de ver. Tenho-me dedicado bastante a projectos pequenos e independentes ao longo da carreira, e senti-me pronta para algo mais vistoso e divertido, para aprender a usar armas e a lutar. A ideia de fazer de oficial do MI6 era apetecível, e fazer parte de uma franquia grande, que o público espera com entusiasmo, também.
PERGUNTA: Fale-nos da experiência de filmar Jack Ryan.
SIENNA MILLER: Foi fantástico do princípio ao fim. Como disse, sou amiga do John, conheci o Michael Kelly, e os três somos um bando neste filme. Não parámos de rir, apesar de termos filmado muitas noites e de ter sido bem mais físico do que eu antecipara. Foi extraordinário poder chegar ao trabalho todos os dias e divertir-me a contar uma história entusiasmante. Tive ainda a oportunidade de conhecer uma verdadeira oficial do MI6 que me ajudou no treino. Aprender com quem faz isto profissionalmente é uma parte estimulante deste ofício, e tem sido maravilhoso.
PERGUNTA: Pode falar da dinâmica entre Jack e Emma?
SIENNA MILLER: A dinâmica entre Jack e Emma é, no início, muito hostil do ponto de vista dela. Ela conhece-o de nome, mas não tem a certeza de que lado ele está. Na nossa história há muitas tramas, muitas reviravoltas, muita deslealdade. Por isso, à partida, a relação não assenta em qualquer confiança, e essa confiança vai-se conquistando ao longo do filme. A dinâmica é mordaz e divertida. Há provocações entre os dois. Ela pica-o por algumas das suas manias e ele aceita-as bem, mas penso que ele fica permanentemente surpreendido com a forma aberta e dura como ela se apresenta. No fim do filme, intuímos que há ali potencial para uma amizade muito sólida. Respeitam-se profundamente quando os créditos sobem.
PERGUNTA: Como foi trabalhar com John Krasinski?
SIENNA MILLER: O John é provavelmente o actor mais conhecedor do ofício com quem já trabalhei, e creio que isso vem, evidentemente, do tempo dele em The Office, que foi um trabalho enorme, mas também do facto de ser um realizador realizado e de Jack Ryan ser parte tão estruturante de quem ele é enquanto actor. É algo em que trabalha há tantos anos que conhece do princípio ao fim. Percebe de cinema de uma forma que eu nunca me dei ao trabalho de perceber: lentes, ângulos, adaptação de actuação consoante o momento, formas de manusear armas. Estou a aprender imenso com ele. E é, evidentemente, uma das pessoas mais engraçadas que alguma vez pisaram o planeta. Adoro-o.
Do princípio ao fim, o John foi inspirador, prestável até à medula, e ainda me fez chorar a rir, o que é o meu ideal de colega de cena.
PERGUNTA: Fale-nos do trabalho com Michael Kelly.
SIENNA MILLER: O Michael é um actor que respeito há muito e com quem sonhava trabalhar. É desarmantemente gentil e, mais uma vez, engraçado. Ele e o John têm uma relação verdadeiramente fraternal. Houve aquele receio inicial: será complicado entrar num papel quando os três trabalham juntos há tantos anos na série? Vou sentir-me a novata? Esse receio dissipou-se nos primeiros cinco minutos, com todos a chorar de tanto rir, porque são tão infantis como eu posso ser. É uma linguagem nova para mim, mas foram apoiantes e maravilhosos. Estão ambos no auge. Melhor era impossível.
PERGUNTA: Max Beesley faz de Crown no filme. Como foi trabalhar com ele?
SIENNA MILLER: O Max é alguém que conheço há muito. Tentámos trabalhar juntos algumas vezes ao longo dos anos e nunca calhara. É absolutamente focado, dedicado e brilhante neste papel. Penso que este tipo de trabalho é território familiar para ele. Já fez muito com armas e em ambientes de acção, ao passo que eu praticamente nada. Por isso ando a aprender com todos eles. Todos os dias.
PERGUNTA: Fale-nos das cenas de acção e do trabalho com Lee Morrison, do treino que fez.
SIENNA MILLER: Lee Morrison é, na minha experiência, o melhor coordenador de duplos da história. É profissional, é seguro e aborda o trabalho quase como um realizador. Fala mesmo a linguagem do cinema, por isso tudo é claro, preciso, sem qualquer gordura. Adorei trabalhar com ele. Em paralelo, treinei armas com um homem espectacular, Ross Upton, que tem anos de combate activo e me ia corrigindo. É mais difícil do que parece segurar uma espingarda de assalto e movimentarmo-nos com ela com naturalidade. Demorei algum tempo a chegar lá. Mas em mãos tão competentes foi um prazer absoluto. Há ainda uma equipa inteira por detrás com quem trabalhámos. Estão todos no topo, aprendi imenso com este trabalho.
PERGUNTA: O que espera da reação do público durante o filme?
SIENNA MILLER: Penso que o público vai ter uma leitura realmente nova da história. O John pode falar disto melhor do que eu, mas há mais espaço e mais tempo para aprofundar as personagens. Temos a primeira verdadeira perseguição automóvel a alta velocidade em Londres, que, ao que percebi recentemente, vai ficar lindíssima. No fim de contas, conhecem-se melhor as personagens, os cenários são deslumbrantes e as sequências de acção estão extraordinariamente bem concebidas e complicadas. Espero que se divirtam, que se envolvam emocionalmente e que fiquem com vontade de mais.
Andrew Bernstein, Realizador
Bernstein recebe o testemunho dos showrunners do pequeno ecrã e traduz a franquia para o cinema. Fala como um realizador que reflectiu muito sobre a diferença entre uma temporada de oito horas e uma única longa-metragem, e as suas referências vão dos thrillers paranóicos da década de 1970 aos filmes de Harrison Ford que apresentaram Jack Ryan a uma geração. As suas observações dão forma coerente ao que os actores referiram antes.
PERGUNTA: O que tem a personagem de Jack Ryan que o fez querer continuar a história?
ANDREW BERNSTEIN: O que adoro em Jack Ryan é que está sempre a mudar e, sobretudo agora, é a história de um homem comum. Não é um super-herói, é o cidadão comum apanhado em circunstâncias extraordinárias. E aí abre-se espaço para explorar toda a gama das emoções humanas, das interacções, das reacções, das relações, de forma muito real, sob circunstâncias intensificadas. Por isso é uma personagem entusiasmante para revisitar. Há muito que se pode fazer com ela. Uma das coisas que quisemos fazer no filme foi precisamente expandir o vocabulário desta personagem.
PERGUNTA: Porque é este o momento certo para trazer Jack Ryan de volta?
ANDREW BERNSTEIN: Tematicamente, entramos nesta ideia do preto-no-branco do mundo. E para fazer aquilo que Jack faz, e que Greer faz, é difícil escolher um lado. É preciso olhar para as zonas cinzentas, que é o que exploramos neste filme. Portanto, ter uma personagem que entra nesse mundo e que tem de descobrir onde está a sua moral e até onde se pode ir. E depois “de que lado estou?”, “onde é certo e onde é errado?”. Estas são, mais uma vez, questões fundamentais em todo o mundo.
PERGUNTA: Pode descrever o tom e o estilo deste Jack Ryan e a forma como difere da série?
ANDREW BERNSTEIN: Uma das coisas que quisemos desde o primeiro instante foi que este filme não fosse uma extensão directa da série. Quisemos que fosse uma obra autónoma, capaz de atrair quem gostou da série e quem nunca a viu. É essa a ideia da história. Visual e tonalmente, queríamos que tivesse esse mesmo carácter, fazendo eco do que tínhamos feito antes, prestando-lhe homenagem, e levando-o noutra direcção.
O Val, o nosso director de fotografia, e eu, passámos muito tempo a discutir como podíamos dar a este filme uma sensação distinta. Uma das ideias que abraçámos cedo foi a estética do cinema de espionagem dos anos 1970, que tantos adoram. Filmes como Os Três Dias do Condor, A Trama, todos esses clássicos. E, em termos de tom, quisemos algo mais terreno, mais centrado no momento, mais emocional, mais psicológico, como esses filmes antigos. Quisemos levar Jack Ryan a lugares onde o público nunca o tinha visto.
PERGUNTA: Apresente-nos a nova personagem, Emma, interpretada por Sienna Miller.
ANDREW BERNSTEIN: Emma é uma agente do MI6, interpretada por Sienna Miller. Uma adição maravilhosa ao filme. Tivemos uma sorte enorme em tê-la connosco. Traz talento e uma visão nova à nossa história. A franquia Jack Ryan nunca teve verdadeiramente uma personagem assim, porque ela é igual a Jack, talvez mais. É o contraponto dele. É alguém que o desafia. É alguém que vai estar olhos nos olhos com ele. A parte entusiasmante é que ela viveu, em parte, a mesma vida. As armadilhas deste meio, os picos e os abismos, a privação emocional, a incapacidade de manter relações. Todas as vulnerabilidades que ela experimentou são vulnerabilidades que Jack também experimentou. Vamos encontrar alguém que, no início, desconfia dele e que, ao longo do filme, se junta a ele para perceberem o que se passa com Starling e Crown.
PERGUNTA: Como elevaram a fasquia nas sequências de acção?
ANDREW BERNSTEIN: Penso que elevámos mesmo a fasquia. A série Jack Ryan já tinha feito sequências fantásticas, dinâmicas ao longo de todo o seu percurso. Aqui colocamo-los numa perseguição de barcos bastante dinâmica, que nunca tinha sido vista nesta franquia. A perseguição automóvel em Londres é algo que nunca tínhamos feito. A batalha na sala de servidores no final do filme é, embora já tenhamos visto batalhas antes, particularmente dinâmica e intensa do princípio ao fim.
PERGUNTA: Pode falar-nos da sequência dos barcos em Dubai?
ANDREW BERNSTEIN: A sequência com o Dow e o Skiff foi uma sequência incrível. Filmámo-la em Dubai, na água. É uma embarcação tradicional de Dubai, e funciona como peça central de uma grande perseguição de barcos onde Jack supostamente se encontra com Nigel, uma personagem que é mentor da Emma de Sienna Miller. Jack salta para um barco e lá vamos nós, por aquela perseguição extraordinária pelos canais de Dubai à noite, com os edifícios impressionantes ao fundo. É um momento central. Não só para mostrar Dubai, mas também para colocar Jack numa sequência de acção que o público nunca o tinha visto a fazer.
PERGUNTA: Como foi Dubai como local de filmagens?
ANDREW BERNSTEIN: Dubai foi espectacular. É um local interessantíssimo porque é conhecido pelo brilho, pelo verniz, por tudo aquilo que atrai as pessoas: as praias, os hotéis, os carros. Quisemos mostrar tudo isso, mas também o que é estar em Dubai sem nada disso. Tentámos entrar um pouco no subsolo, mostrar variações deste lugar. E aproveitar o que tem de melhor: os arranha-céus, as luzes, tudo aquilo que o torna entusiasmante.
Para nós, o entusiasmante é termos Dubai neste filme. Temos Londres, temos Nova Iorque, temos Washington D.C. Quatro cidades absolutamente distintas. E gostamos de exibir todos estes lugares.
PERGUNTA: Quais foram os desafios de filmar a perseguição automóvel em Londres?
ANDREW BERNSTEIN: A perseguição automóvel em Londres demorou nove meses a preparar. Uma das coisas boas da franquia Jack Ryan é que não fugimos à ambição. Se algo é difícil, tentamos fazê-lo. Dissemos cedo que queríamos fazer uma grande perseguição no centro de Londres. Claro que todos disseram “estão loucos, isso não é possível”. E nós, “está bem, falemos com as pessoas certas”. Ao longo de meses fomos escolhendo os locais onde queríamos filmar, todos eles de grande movimento turístico. No fim conseguimos, porque tivemos profissionais excepcionais que trabalharam incansavelmente para que tudo acontecesse. Filmámos uma perseguição automóvel dinâmica e impressionante pelo centro de Londres, algo que praticamente nunca tinha sido feito.
PERGUNTA: Fale-nos da experiência de filmar no Reino Unido.
ANDREW BERNSTEIN: A experiência de filmar no Reino Unido foi extraordinária. Foi incrivelmente gratificante e compensadora. Foi cinematograficamente belíssima. As pessoas aqui foram impecáveis. As equipas técnicas são fora de série. O elenco local é também extraordinário. Esta é a peça central do filme. Passámos cá muito tempo. Receberam-nos sempre de braços abertos, e em cada ângulo da cidade conseguimos captar coisas que já se viram no cinema e outras inéditas que penso que vão surpreender o público.
PERGUNTA: Quais são os grandes temas do filme?
ANDREW BERNSTEIN: Diria que o maior tema é o do preto-no-branco do mundo, da forma como as pessoas vêem o mundo e de onde está a zona cinzenta, de onde está a moral de cada um. Jack Ryan entra no filme como sempre foi no cânone, alguém muito a preto e branco. Quisemos levá-lo numa viagem em que isso se inverte. No final do filme, está num lugar muito diferente em relação à sua visão do mundo. Talvez exista uma zona cinzenta na qual tenha de operar para sobreviver, para conseguir fazer o que precisa. Foi muito importante, em termos temáticos, explorarmos essas zonas cinzentas. Brincamos também com temas como o isolamento, a vingança, a solidão, a confiança, esses tópicos que fazem parte de quem trabalha neste meio.
PERGUNTA: Há Easter eggs que os fãs devam procurar no filme?
ANDREW BERNSTEIN: Uma das coisas que verdadeiramente quisemos fazer com este filme, Easter egg ou não, foi prestar tributo aos primeiros filmes. Jogos Patrióticos era assunto desde o princípio. O Jack Ryan de Harrison Ford, aqueles primeiros filmes, Perigo Imediato, regressar ao que tornou Jack Ryan grandioso. Por isso, para quem adora esses filmes, isto será, talvez não um Easter egg, mas uma homenagem àqueles primeiros filmes e um fechar de ciclo até ao ponto em que Jack Ryan começou no ecrã.
PERGUNTA: O que espera da reação do público durante o filme?
ANDREW BERNSTEIN: O nosso objectivo é que fiquem mais entusiasmados com Jack Ryan enquanto personagem. Foi esse o nosso propósito desde o início, perceber mais sobre quem é esta pessoa, o que a faz funcionar, como podemos expandir esta personagem para o público. Há acção que vai impressionar toda a gente, há cenários que vão impressionar toda a gente, mas, no final do dia, espero que sejam as relações no filme, que aprofundámos a partir da série, a ressoar nas pessoas.
Há um possível romance entre Jack e Emma. Há a grande história de amor entre Greer e Jack que já vimos antes, em que são parceiros excepcionais. São estas as relações que penso que o público vai querer ver mais. A acção será espectacular. Mas em termos de relações, é aí que espero que o entusiasmo dispare.
Considerações Finais
O que ressalta destas conversas é um filme que ambiciona ser mais do que uma transposição da série. Krasinski fala em combustibilidade, Pierce na bússola moral, Kelly na liberdade para explorar a personagem, Beesley na geografia de uma perseguição londrina que demorou nove meses a coreografar, Miller num exterior duro que teve de erguer, e Bernstein nos thrillers paranóicos da década de 1970 que informam discretamente a linguagem da câmara. Em conjunto, descrevem um thriller que comprime a intensidade de uma temporada num único arco, coloca Jack pela primeira vez dentro de uma zona moral cinzenta e oferece-lhe em Emma Marlow uma parceira capaz de o equiparar passo a passo.
As localizações reflectem a mesma ambição: os canais de Dubai à noite, as artérias do centro de Londres seladas durante cinco fins-de-semana, Nova Iorque e Washington como pontos de ancoragem de uma história que se recusa a parar quieta. As grandes peças de acção, a perseguição de barcos, a perseguição automóvel e o confronto na sala de servidores, são apresentadas como território novo para a franquia. E a homenagem à era Harrison Ford de Jack Ryan não é uma piscadela de olho, é uma estrela-guia.
Estas entrevistas exclusivas em Portugal chegam antes da estreia. O veredicto da Candey+ sobre o próprio filme virá assim que os créditos rolarem. Por agora, o que o elenco e o realizador oferecem é uma noção clara daquilo que perseguiram em rodagem: um homem comum com um relógio a acelerar, uma amizade levada ao limite da ruptura e uma perseguição que finalmente coloca um filme de Jack Ryan exactamente onde os fãs da primeira hora sempre quiseram vê-lo, nas ruas de Londres, com o mundo a assistir.