O quinto relógio da Google é igual ao quarto por fora e, sem grande alarido, o smartwatch pequeno mais inteligente que há. O trabalho no GPS impressiona, o preço subiu e as funcionalidades de saúde ainda não chegaram.
O relógio que ninguém me pergunta o que é
Uso Pixel Watch desde o primeiro e, em quatro anos, nunca ninguém me perguntou o que trago no pulso. Perguntam por um Apple Watch Ultra. Perguntam por um Fenix, normalmente quem também tem um. Por este não perguntam, e à quinta geração isso deixou de ser acaso e passou a ser a coisa mais interessante do produto.
A unidade com que tenho vivido é a de 41 mm com LTE, caixa em alumínio Satin Pyrite e bracelete Azeitona, referência GA11566-DE-N. É a pequena, a discreta, a que desaparece debaixo do punho da camisa. E é um objeto estranho de analisar, porque quase tudo o que a Google melhorou este ano é invisível. A caixa é a mesma caixa. O ecrã é o mesmo ecrã. O que mudou vive numa infraestrutura na nuvem, numa revisão de chip que ninguém sente e num conjunto de funcionalidades de saúde anunciadas em agosto que, enquanto escrevo isto, continuam sem chegar.

O que a Google mudou este ano
Por fora, nada. As mesmas caixas de 41 e 45 mm, os mesmos 12,3 mm de altura, o mesmo ecrã Actua 360 abaulado, a mesma coroa e o mesmo botão lateral, o mesmo encaixe de bracelete. A Google nem fingiu o contrário na apresentação de 12 de agosto.
Por dentro, a lista é curta e quase toda sensata. O chip é um Snapdragon W5 Gen 2 Accelerated com coprocessador Cortex-M55, que a Google diz render mais 12 por cento de CPU e cerca de 20 por cento de velocidade geral. A memória sobe de 2 GB para 3 GB. O armazenamento duplica, de 32 GB para 64 GB. A bateria do modelo de 41 mm passa de 325 mAh para 332 mAh, o que é um arredondamento e não uma evolução. Sai de fábrica com Wear OS 7.0, assente em Android 17.
Depois há as duas coisas que contam mesmo: um sistema de GPS reconstruído que reprocessa o percurso na nuvem depois do treino, e o Health Guardian, chapéu que junta tendências de tensão arterial, tendências de resistência à insulina, qualidade da respiração durante o sono e deteção de emergências respiratórias. Das quatro, uma está ativa. Volto a isso.

Especificações técnicas
| Modelo | Google Pixel Watch 5, 41 mm, 4G LTE (GA11566-DE-N) |
| Ecrã | Actua 360 AMOLED LTPO de 1,2 polegadas, 320 ppp, DCI-P3, 1 a 60 Hz, 1 a 3000 nits, Gorilla Glass 5 3D personalizado |
| Chip | Qualcomm Snapdragon W5 Gen 2 Accelerated, coprocessador Cortex-M55 |
| Memória | 3 GB de RAM, 64 GB eMMC |
| Bateria | 332 mAh, até 30 horas com ecrã sempre ligado, até 48 horas em poupança de energia |
| Carregamento | Base de carga rápida, 50% em cerca de 15 minutos, 80% em cerca de 25 minutos, 100% em cerca de 45 minutos |
| Caixa | 41 x 41 x 12,3 mm, 31 g sem bracelete, alumínio 100% reciclado |
| Resistência | 5 ATM, IP68 |
| Conetividade | 4G LTE e UMTS, Bluetooth 6.0, Wi-Fi 802.11a/b/g/n/ac/ax (2,4 e 5 GHz), NFC, ultra-wideband, SOS por satélite |
| Localização | GPS de dupla frequência, Galileo, GLONASS, BeiDou, QZSS |
| Sensores | Sensor ótico de ritmo cardíaco multicanal, sensores elétricos compatíveis com ECG, SpO2, cEDA, sensor de temperatura da pele, barómetro, altímetro, bússola, magnetómetro, giroscópio, acelerómetro, luz ambiente |
| Software | Wear OS 7.0 (Android 17), versão CP3A.260905.002 |
| Na caixa | Relógio, braceletes Active nos tamanhos S e L, base de carga rápida, guia rápido |
| Preço em Portugal | 519 euros (41 mm LTE), 419 euros (41 mm Wi-Fi) |
Design e a bracelete Azeitona
A caixa de 41 mm pesa 31 g sem bracelete, leve o suficiente para eu esquecer que a trago durante o dia e leve o suficiente para dormir com ela sem rancor. Esta última parte não é detalhe menor, porque todas as funcionalidades de saúde que a Google vende dependem de levares o relógio para a cama, e um relógio de 45 mm num pulso fino sai à meia-noite.
O vidro abaulado continua a ser a decisão que define o produto e continua a cortar dos dois lados. Parece joalharia e não instrumento, o gesto de deslizar a partir da margem sai natural de uma forma que os ecrãs planos nunca conseguem, e é um íman para exatamente o tipo de raspadela no aro da porta que arruína uma superfície curva. O alumínio a 41 mm não tem bisel que se sacrifique. Quem bate com o pulso nas coisas deve contar com a cúpula riscada em menos de dois anos, e nenhuma capa resolve isso num ecrã com esta forma.
O acabamento Satin Pyrite é o mais interessante que a Google já fez. É um dourado quente que lê como bronze dentro de casa e muito mais amarelo ao sol direto, e a bracelete Azeitona, agora de segunda geração, é um verde acinzentado apagado que impede o conjunto de parecer relógio de cerimónia. O fluoroelastómero tem um revestimento de toque suave que é genuinamente agradável contra a pele e genuinamente um apanhador de cotão no bolso. Vêm as duas medidas na caixa, o que é a decisão certa e ainda não é regra neste patamar de preço.

Configuração e a primeira hora
Abres a caixa e estão lá três coisas: o relógio, as duas braceletes por baixo do tabuleiro e a base de carga rápida. Adaptador de corrente não vem, portanto os tempos de carga anunciados pela Google assumem que arranjas um decente. Dá-lhe um carregador de telemóvel que já tenhas e os números confirmam-se; dá-lhe um bloco de 5 W com cinco anos e não.
O emparelhamento faz-se pela aplicação Google Pixel Watch e, se vieres de um Pixel Watch anterior, o restauro traz agora mostradores, mosaicos e disposição das aplicações, coisa que nem sempre corria bem. É no eSIM que o modelo LTE se torna particular. Em Portugal, a variante com LTE é exclusiva da Vodafone, por isso o processo de ativação assume uma linha Vodafone e o relógio tem de ficar na mesma operadora do telemóvel para haver transferência completa de chamadas e mensagens. A exigência é da Google e não da operadora, mas o efeito prático é que a decisão sobre o LTE aqui é, na verdade, uma decisão sobre operadora.
A hora seguinte é sobretudo a Google Health a pedir autorizações. Dá-lhe tudo, ou o relógio passa uma semana meio informado.

Wear OS 7, Gemini e a atualização de setembro
Nunca o software esteve tão acabado. A atualização de setembro, versão CP3A.260905.002, chegou a 1 do mês e traz mais carne do que muitas atualizações anuais: Gemini offline para as ações essenciais, um gesto de duplo toque com os dedos bastante mais inteligente e os mapas de percurso corrigidos na aplicação Health.
O Gemini offline importa mais do que parece. Pôr um temporizador, iniciar ou parar um treino e ligar o Não Incomodar passaram a correr no próprio relógio, sem ida à rede, o que significa que respondem de imediato e respondem numa cave de estacionamento. Todos os assistentes de voz em relógios sempre falharam exatamente nessas duas situações.
O trabalho nos gestos é a parte que eu não contava usar e agora uso a toda a hora. O duplo toque abre o At a Glance ou o centro de notificações a partir do mostrador, percorre as respostas do Gemini, salta entre cartões da Wallet e passa as métricas do treino a meio de uma corrida. Operar um relógio com uma mão só parece truque de feira até estares com as compras na outra.
O Gemini em si continua a ser a vantagem mais clara que a Google tem sobre qualquer concorrente. Fazes uma pergunta em linguagem normal e ele responde já com a tua agenda, o teu correio e a tua localização em mãos, num ecrã do tamanho de uma moeda. Não há nada assim noutro pulso. A ressalva é que o melhor da aplicação Google Health, o treinador, os textos de interpretação, a leitura dos teus próprios dados, vive atrás da subscrição Google Health Premium. Sem ela, a aplicação é um visualizador de gráficos competente. Com ela, é a melhor plataforma de saúde de qualquer relógio. É uma conversa sobre subscrições disfarçada de análise de hardware, e pertence à decisão de compra.

O GPS, e o que ele não resolve
A Google reconstruiu o registo de percursos ao ar livre e fê-lo num sítio inesperado: não no relógio, mas na nuvem, depois de acabares.
São três correções. A primeira usa o modelo 3D do mundo da Google, as mesmas alturas de edifícios e de terreno que estão por trás do Google Earth, para perceber que satélites o teu relógio conseguia mesmo ver do sítio onde estavas, e para deitar fora os reflexos que vinham a saltar da torre de vidro do outro lado da rua. A segunda vai buscar dados atmosféricos em tempo real a estações de referência para corrigir o efeito do tempo. A terceira volta a cruzar os dados do acelerómetro e do giroscópio com as duas primeiras.
O resultado em rua estreita de cidade é o melhor que vi em qualquer relógio. Onde um Fenix te põe do lado errado da estrada e um Apple Watch te encosta discretamente ao passeio mais próximo, este põe-te onde realmente estiveste, incluindo quando o sítio onde estiveste não faz sentido nenhum. Corre um círculo no meio de uma rua fechada ao trânsito e ele desenha o círculo. Passa por baixo de uma ponte, volta para trás e atravessa, e ele segue-te. A malha da Baixa lisboeta, com seis andares de pedra dos dois lados de uma rua de quatro metros, é precisamente o problema que isto foi feito para resolver, e resolve.
Agora a parte honesta, porque é aqui que está a discussão toda. Isto é pós-processamento. O ritmo em direto, a distância em direto e o mapa no relógio durante o treino ficam exatamente como estavam. O percurso corrigido aparece na aplicação Google Health até dez minutos depois de parares e, até lá, vês o traçado em bruto. Se contavas com melhor orientação a meio de um trilho, isto não te dá nada. Se a objeção é que uma linha mais bonita no fim é vaidade, a objeção é justa numa sessão de séries na pista e é errada em tudo o que tencionas voltar a ver. Os percursos são o que as pessoas guardam de facto.
Em floresta e em gravilha aberta, o ganho encolhe até quase desaparecer. Debaixo de falésias e de copado, é bom, nem melhor nem pior do que a concorrência, por vezes ligeiramente atrás. O feito é real e é estreito.

Saúde, e as funcionalidades que ainda não chegaram
O Health Guardian era a razão para comprar este relógio em vez do do ano passado, e a maior parte dele ainda não existe.
As tendências de tensão arterial, que estimam a direção persistente da tua tensão a partir de padrões de pulso e movimento, sem braçadeira, precisam de um mês de dados antes de reportarem e foram prometidas para setembro. As tendências de resistência à insulina, leitura metabólica mensal, o mesmo. A qualidade da respiração durante o sono, o mesmo. São todas tendências e resumos mensais em vez de leituras, são todas apresentadas como bem-estar e não como diagnóstico, e todas chegam também ao Pixel Watch 4, o que enfraquece bastante o argumento para atualizar. À data de hoje não chegaram, e a lista de novidades de setembro nem sequer as menciona.
A funcionalidade do Health Guardian que está ativa é a que mais interessa, e está ativa precisamente aqui. A deteção de emergências respiratórias procura uma queda persistente e crítica na saturação de oxigénio, confirma que estás imóvel e não simplesmente a dormir, e liga aos serviços de emergência com a tua localização se não responderes. Foi pensada para overdose, engasgamento e pneumonia grave. Tem marcação CE, não tem autorização da FDA americana e está disponível em Portugal, a par de Espanha, Itália, França, Alemanha, Irlanda, Bélgica, Países Baixos, Áustria, Dinamarca, Noruega, Suécia, Suíça e Reino Unido. É de adesão voluntária e vem desligada, ou seja, não faz absolutamente nada até a ires ligar, o que deves fazer na primeira hora. Num relógio com LTE, a chamada pode partir do próprio pulso, sem telemóvel na divisão. Esta frase é o melhor argumento para gastar os 100 euros a mais.
O resto do quadro de saúde transita do ano passado. Os horários de sono são fiáveis, a Google reclama mais 15 por cento de precisão na deteção de fases, e o novo alarme inteligente toca dentro de uma janela de 30 minutos antes da hora marcada, quando o sono está mais leve. O modo de dormir passa o mostrador a vermelho sobre preto para que um pulso às três da manhã não te cegue. O Cardio Load continua a ser o melhor sistema de carga de treino em relógios de consumo, porque, ao contrário do da Garmin, conta o dia inteiro e não apenas as horas em que te lembraste de carregar em começar, e uma tarde a carregar caixas aparece no gráfico onde deve aparecer.
Onde continua a falhar para quem treina a sério
O sensor ótico de ritmo cardíaco é forte. Em corrida contínua e em saídas longas de bicicleta acompanha de perto uma banda peitoral, e aguenta séries com apenas alguns saltos ocasionais no arranque de um esforço duro. O sensor é igual ao do ano passado e não precisava de mudar.
As falhas estão noutro lado e são indesculpáveis à quinta geração. Não há volta manual. Num relógio com 55 perfis desportivos, em 2026, não consegues carregar num botão para marcar uma volta. Não podes emparelhar uma banda peitoral, portanto, se quiseres a precisão de uma banda numa sessão dura, ficas dependente de aplicações de terceiros e da confusão que trazem atrás. Não há suporte para medidores de potência de ciclismo nem para qualquer outro sensor externo. A personalização dos campos de dados fica-se por quatro num único ecrã e acaba aí a conversa. Não há navegação por percurso que mereça o nome.
A Google investiu um esforço de engenharia enorme para construir o traçado de GPS mais preciso da indústria e depois lançou-o num relógio que não consegue marcar uma volta. Não tenho explicação para isto e ninguém tem. O construtor de treinos estruturados é bom, sobretudo quando descreves a sessão em voz alta e o Health Coach a monta, e a interface de treino de força com contagem de repetições e cargas foi anunciada para setembro e também ainda não apareceu.
Autonomia e carregamento
A Google anuncia até 30 horas no modelo de 41 mm com o ecrã sempre ligado e até 48 horas em poupança de energia. São números honestos e não otimistas, e descrevem um relógio que dá um dia inteiro e mais um bocado, não um relógio de dois dias.
Na prática, isto carrega-se todas as noites se registares o sono, que é a razão de ser do aparelho, e a célula de 41 mm dá-te menos margem do que a de 45 mm. O que o safa é a base. Cinquenta por cento em cerca de um quarto de hora muda a rotina por completo: o relógio vai para a base enquanto tomas banho, sai de lá quase cheio, e a ansiedade da bateria deixa de ser assunto. É melhor resposta do que uma célula maior teria sido, e é por isso que os 7 mAh a mais em relação ao ano passado não fazem diferença nenhuma.
Liga o LTE e usa-o como substituto do telemóvel numa corrida longa e o cenário muda depressa. Rede móvel numa bateria de 332 mAh sai cara, e uma hora sem telemóvel custa percentagem a sério. Conta com isso em vez de seres apanhado de surpresa.
Temperatura, ecrã e o uso diário
O ecrã é a melhor parte do hardware. Três mil nits de pico significam que continua legível com sol de verão alentejano e o céu branco por cima, e o mínimo de 1 nit significa que o mostrador sempre ligado de madrugada é uma brasa fraca e não uma lanterna. A taxa LTPO desce a 1 Hz quando nada se mexe, e é aí que o ecrã sempre ligado deixa de ser um imposto sobre a bateria.
O calor não é problema em uso normal. A caixa aquece ligeiramente na base de carga e aquece de forma percetível durante uma chamada longa por LTE, o que é física num objeto deste tamanho, e nunca chega ao ponto de incomodar contra a pele. As vibrações são as melhores de qualquer aparelho com Wear OS, secas e curtas em vez de zumbidas, e a coroa tem um clique mecânico verdadeiro que faltava às duas primeiras gerações.
Veredicto
O Pixel Watch 5 é o melhor smartwatch pequeno que podes pôr a trabalhar com um telemóvel Android e é uma péssima atualização a partir de um Pixel Watch 4. As duas coisas são verdade e não estão em contradição. A Google gastou o ano num sistema de GPS que lidera mesmo a indústria dentro das cidades, num software que finalmente parece terminado, e em funcionalidades de saúde que na maior parte não chegaram e que vão aterrar no relógio do ano passado à mesma. O que compras hoje é um relógio de 41 mm bem construído, infinitamente esperto e verdadeiramente reparável, que é discretamente melhor naquilo que as pessoas fazem mesmo com um relógio do que qualquer outra coisa em Android, com um conjunto de falhas no registo desportivo que um produto na quinta geração não tem desculpa para ainda ter.
Compra-o se vens de um Pixel Watch 3 ou anterior, se queres a caixa pequena e se queres um relógio que se repara em vez de se substituir. Paga os 100 euros do LTE só se sais de casa sem telemóvel ou se queres as funcionalidades de emergência a funcionar quando não há ninguém por perto; caso contrário, fica-te pelo modelo Wi-Fi de 419 euros e gasta a diferença no Google Health Premium, que é onde vive metade do valor desta coisa. Passa à frente se já tens um Pixel Watch 4, porque tudo o que vale a pena vai chegar ao teu pulso na mesma. E procura noutro lado se levas a sério uma volta manual, porque a Google continua a não te deixar marcar uma.